O Dia da Entrevista com Meus Sapatos Velhos

14/12/2014 11:27

 

Desde muito jovem nunca fui muito apegado a aparência. Marcas para mim nunca significaram nada e eu sempre achei muito estranho quando via meus amigos e primos alvoraçados por tênis de marca ou por roupas da moda. Sempre fui muito modesto neste sentido. Se a roupa está boa, me agrada e é confortável, não precisa ter um preço exorbitante.

Mas conforme eu fui crescendo comecei a me preocupar um pouco mais com minha imagem. Percebi da pior forma que portas se abrem para quem tem boa aparência e o mesmo acontece com quem está bem apresentável.

Infelizmente para pessoas como eu, o mundo não julga após conhecer. O julgamento começa no momento em que somos vistos. Ter modos e boa educação podem fazer qualquer bom ladrão se passar por cavalheiro (e olhe que certa vez conversei com um morador de rua que colocaria muito escritor no bolso e vários cavalheiros no chinelo, mas isso é história para uma próximo postagem).

No meio deste ano fui desligado da instituição de ensino onde eu lecionava por ter exposto meu descontentamento com relação a coordenação do curso quanto a atitudes no mínimo imaturas vindas do coordenador em pessoa. Só para deixar claro, este não era o coordenador que me selecionou. O meu primeiro coordenador, se tornou meu padrinho de casamento.

Pouco tempo depois fui selecionado para uma entrevista em uma instituição municipal de ensino(a Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista-FESB) para fazer parte do corpo clínico de seu hospital veterinário. Ao final da seleção, fui aprovado em primeiro lugar, mas não estou trabalhando lá. Devido a uma série de contratempos precisei abrir mão da posição para a segunda colocada, que com certeza é tão competente quanto eu para a missão. Eu havia deixado bem claro na entrevista que minha filha seria a única coisa que me impediria de ir e  de certa forma foi o que aconteceu. Mas o que quero contar aqui não é isso e sim algo que me fez voltar a um passado que sempre estará presente em mim.

Eu sempre fui uma pessoa que espera pelo melhor, mas que busca preparar-se sempre para a pior cenário, na pior das condições, no pior momento, da pior forma (apocalipse zumbi não me pegará desprevenido, nem mesmo o bug de 2038 - só os nerds e os geeks entenderão). E esse momento havia chegado (não, não o apocalipse zumbi).

Sem emprego, sem perspectiva de conseguir um novo trabalho, em uma cidade pequena, com poucas posições que minha formação profissional e minha especialidade me permitiriam ocupar, busquei formas de ter o menor gasto possível. Tracei meu itinerário tentando combinar, com certa margem de erro em relação aos horários de chegada e partida, os ônibus de uma viagem que levaria 14 horas (tempo estimado) até São Paulo-SP e mais 1 a 2 horas (tempo estimado) até Bragança Paulista-SP. Estimei o tempo gasto entre as estações de Metrô assim como prevendo que haveriam vagões lotados e que eu teria que aguardar o segundo ou o terceiro trem antes de embarcar. Ao chegar na cidade de destino, fui para o hotel mais simples e próximo ao meu local de entrevista. E foi só lá que percebi algo que me fez voltar 10 anos no passado, para o ano de 2004, quando eu era um Médico Veterinário recém formado, cheio de medo, insegurança, torcendo todos os dias para não aparecer nenhuma emergência e cujo coração acelerava a cada caso que eu atendia.

Enquanto eu separava a roupa para a entrevista percebi vários detalhes que eu nunca parei para observar. Eu havia escolhido uma calça jeans em um azul bem escuro e uniforme que comprei quando minha filha nasceu. A camisa era na cor preta que eu havia ganhado para usar na noite de minha colação de grau, em janeiro de 2004. O cinto provavelmente era o item mais novo. Junto eu trazia algo que, tenho fé, sempre foi um amuleto que me deu muita sorte.

Este amuleto que carrego sempre em meu colarinho no lado esquerdo é o meu distintivo de lapela, com o nobre símbolo de minha profissão, que me acompanhou em cada um de meus momentos mais importantes: meu primeiro emprego, minha seleção para Médico Veterinário Residente de Clínica Médica de Pequenos Animais, minha seleção para o Hospital Veterinário da Universidade de Passo Fundo, minha avaliação didática de seleção para docente na instituição onde lecionei, no dia do meu casamento, no dia do nascimento de minha filha, no dia em que assinei o contrato de financiamento de minha casa, no dia em que meus pais pousaram novamente em terras brasileiras voltando do Japão, após toda a hecatombe que lá ocorreu há alguns anos atrás. Momentos que fazem meus olhos marejarem ao escrever isso tudo.

Mas de todos os itens, por mais velhos que estivessem, havia um que eu raramente reparava e somente neste dia prestei um pouco mais de atenção enquanto cuidadosamente o engraxava. Observava cada marca de dobra formada pelo uso, ou melhor, pelos quase 5 anos de uso. Enquanto o virava, olhei para a sola de um deles e vi vários pontos de desgaste. Ao inspecionar o outro par, observei o mesmo. Eu não tinha outro par de sapatos, não poderia, nem se eu quisesse comprar um novo par, pois meu "modo de sobrevivência" estava ativado e cada centavo deveria ser poupado até não poder mais me segurar.

Isso me fez retornar em pensamento até abril de 2004, quando enfim meu registro profissional foi emitido e eu consegui meu primeiro emprego. Naquela época minha vida era um pouco mais difícil. Por diversas vezes peguei ônibus muito lotados, andei muitos quilómetros a pé de segunda a sábado e por causa disso meu primeiro sapato como profissional, furou e permaneci com esse mesmo sapato por alguns meses ainda (não por escolha). Para evitar gastá-lo mais ainda, nas horas de folga eu ficava em casa, não saía. E meus pés agradeciam!

E este ano, um ano difícil para mim, novamente um sapato furado. Só que desta vez com um gostinho diferente. Eu não era mais o profissional recém formado, inseguro, com muitos planos, considerando muitas possibilidades. Já era um profissional bem experiente, reconhecido dentro da especialidade que escolhi, com planos traçados e caminho bem definido, indo para muito longe. Mas ao mesmo tempo, humilde como aquele mesmo recém formado. Ao comparar o antes e o depois percebi que continuo a mesma pessoa que era. Continuo me apresentando pelo meu nome e não por títulos, continuo cumprimentando desde o mais simples ao mais abastado com a mesma cortesia e continuo não me aquietando com as coisas erradas.

A única diferença é que os sapatos furados do passado me eram menos confortáveis do que os sapatos furados de hoje, pois a rusticidade do chão por que caminhei e pelo qual deixei minhas pegadas, também fortaleceu os pés que me carregam de forma que o solo mais áspero é sentido como um macio tapete. Mas o mais importante é que quem os calça ainda são os mesmos pés calejados que me trouxeram até aqui.

Que as luzes dos sábios iluminem o seu caminho.

Marcell H.K.

 


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