Nós os Pais Também Precisamos ser Educados (em Todos os Sentidos)

05/11/2014 16:19

A minha vida inteira me dediquei a praticar artes marciais. Entre todos os estilos, o Judo foi o que mais me cativou. Um dos motivos era relacionado aos amigos que fiz e a participação dos familiares quando íamos em comboios para os campeonatos (de onde eu sempre procurava fugir).

Certa vez vi o pai de duas crianças em um destes campeonatos parabenizar exaustivamente um dos meninos por ter sido campeão e parabenizar não tão entusiasmado o outro que havia conquistado o terceiro lugar em outra categoria.

Bom, se você é uma pessoa atenta e possui um mínimo de empatia, deve ter percebido que este pai errou. Mas perceba que ele errou tentando acertar. Vou explicar meu ponto de vista. Vem comigo!

 

Os Acertos Devem Ser Divididos em Categorias?

 

Esta é uma pergunta difícil de responder. Para alguns, uma pessoa descobra a cura do câncer certamente terá acertado em uma categoria mais importante do que alguém que acerta a resposta correta em uma brincadeira de pergunta e respostas. Bom, você já percebeu que eu não concordo com esse ponto de vista, não é mesmo?

Um acerto, uma boa ação, um salvamento, um cumprimento ou seja lá o que consideremos um acerto possuem para mim o mesmo valor. Com a mesma eloquencia (na verdade quase muda) com que eu elogio um aluno quando este me dá uma reposta brilhante, daquelas que eu não esperava, eu elogio a minha filha quando ela acerta ao desenhar uma flor. E tenho um motivo para isso.

quando alguém faz algo correto (difícil ou não, mas correto) e este alguém é elogiado, estimulamos o centro de recompensa que se encontra em nosso sistema nervoso central em suas porções mais primitivas. Por gerar prazer e uma sensação de bem estar, essa pessoa vai querer fazer coisas boas, corretas e até autruístas outras vezes. Mas eis que, o que ela fez antes nunca mais é elogiado, mas o elogio volta quando faz algo mais mirabolante ou mais grandioso. Esta pessoa, novamente inundada de hormônios que lhe dão prazer vai em algum momento entender que, para ter toda essa sensação de novo, terá que fazer sempre algo maior. Bom, lamento informar, mas se você age desta forma está conduzindo seus filhos para um poço sem fundo, escuro, frio e sem uma corda para poderem sair.

Nosso mundo hoje está tão impregnado de poucos grandes gênios que nossos filhos ao perceberem que não conseguem fazer o mesmo, sentem-se impotentes, sentem-se inferiores e acomodam-se. Estamos criando uma legião de futuros pessimistas, futuros deprimidos, mas o pior de tudo: estamos tirando deles a oportunidade de serem grandes pessoas. Como assim?

Bom, isso não está nos livros e ninguém me contou. Isso eu vi várias vezes ao longo da minha vida. Eu cresci vendo pais de amigos meus elogiando e incentivando cada pequenino milagre que realizavam. Se um de meus amigos fazia um avião de papel logo recebia um elogio do pai: "nossa filho! Você fez um avião! E nem é um engenheiro ainda, imagine quando for!". Quando ele contava para a mãe sobre o que aprendeu na escola, logo vinha um: "parabéns filho! Que inteligente que você está ficando! Logo logo vai ser mais sabido que seu pai e eu juntos!". Se ele ensinava a irmã mais nova a fazer uma lição de casa, logo recebia um outro elogio. E assim foi indo, com pequeninos mimos. Ele nunca precisou passar de ano na escola para ganhar um presente. Os pais nunca precisaram se preocupar com ele fazendo algo de errado, pois sabiam que para aquele rapaz que cresceu tendo estímulos positivos na mesma intensidade para seja lá o que ele fizesse de correto o fizeram crescer entendendo que o que é certo é certo e não há classificação para o que é correto. O que é certo simplesmente é certo e tem que ser feito. Mas para que isso funcione precisa do errado também, não precisa? Sim! Precisa e vou lhe contar como trabalho com o incorreto.

 

Os Erros Podem ser Categorizados?

 

Aqui temos que tomar muito cuidado para não super valorizar erros pequenos e não desvalorizar erros grandes. Anteriormente eu disse que temos que supervalorizar os acertos independente do tamanho deles. Mas com os erros temos que tomar um pouco mais de cuidado. Pois se assim não o fizéssemos, trataríamos da mesma forma um pai de família que rouba um saco de feijão para colocar comida na mesa e um miserável de um traficante.

Eu comentei com você que toda as vezes que nossos filhos, ainda em formação, recebem um estímulo positivo, seus pequeninos organismos são inundados por hormônios que lhes causam uma sensação, como diria minha filha "incrível!". Mas quando são repreendidos, isso não acontece e podemos sentir nossos corações trincarem ao vê-los murchando.

Alguns erros merecem apenas uma correção e orientação para que se transformem em acertos. Outros precisam de repreensão. Eu como professor, espero sinceramente que você como pai ou mãe não trate uma nota baixa na escola devido a uma dificuldade no aprendizado da mesma forma que trataria a ausência não autorizada de seu filho ou de sua filha na aula. São "não acertos" diferentes. Você conseguiu compreender o que eu quis dizer com categorizar? Um erro precisa de orientação ou outro também, mas merece uma repreensão junto.

Se tratarmos um erro pequeno com a mesma severidade com que trataríamos um grande erro, estaremos ensinando a nossos filhos: injustiça, falta de percepção e o ditatorialismo e não é este o caminho. Eu tenho certeza que você não quer que seus filhos cresçam com medo de vocês. Nós somos pais. Nosso trabalho não é sermos os melhores amigos de nossos filhos. Para isso eles tem os próprios amigos. Ser pais é sermos o porto seguro deles, é ser o refúgio que buscarão quando tudo o mais der errado. E isso os amigos deles não poderão nunca se igualar a vocês.

Eu já errei no passado como pai, mas percebi a tempo que estava sendo ditatorial ao invés de ser exemplo. Percebi ainda que minha forma de educar a minha filha estava se baseando em imposição e não em entendimento. Vou explicar, pois talvez você também faça isso e nem perceba.

Quando minha filha tinha ainda os seus 3 para 4 anos eu sempre dizia a ela para jogar o lixo no lixo e se ela não o fizesse eu lhe dava uma bela bronca. Até que um dia eu me dei conta de que nunca havia explicado a ela o porquê de jogarmos o lixo no lixo. Hoje ela não apenas sabe o motivo, como sabe que o que é possível de ser reutilizado deve ser reciclado. E continuo a elogiá-la sempre que a vejo fazendo isso. Nunca mais precisei chamar a sua atenção. E acreditem em mim, raríssimas vezes eu vejo minha filha fazer algo de errado.

 

Mas e Se Isso Tudo Falhar?

 

Tudo na vida que envolva populações responde a uma curva que chamamos em estatística de Cuva de Gaus ou Curva de Normalidade. Existe um extremo onde os resultados são magníficos, existe um extremo oposto onde os resultados são desanimadores e existe uma área central onde a maioria da população responde como esperamos,nem mais, nem menos. Se por acaso tudo falhar, infelizmente você se encontra no extremo que nenhum de nós gostaríamos de estar. A beleza deste gráfico é que ele não é fixo e nem imutável. Ele pode ser modificado assim como a percepção de certo e errado de nossos filhos.

Procure as falhas, quase sempre os erros são seus. Quando um pai ou uma mãe cobra algo de seus filhos, mas eles próprios não cumprem o que exigem, não vai dar certo. Crianças são criaturas com uma plasticidade mental fantástica. Estão sempre aprendendo e por imitação! Faça o bem e elas imitarão. Faça o mau e elas imitarão também. E a natureza não foi burra ao lhes da o brilho de olhos inocentes. Já se perguntou porque os olhos das crianças são tão brilhantes?

É porque precisam ser o mais reflexivos possíveis para que nós possamos nos ver em seus olhos e lembrar que esses mesmos olhinhos brilhantes um dia vão ser o reflexo do que somos com eles. Um dia, muito bravo com algo que a Isabella havia feito (não me apego ao que me desagrada, portanto não me lembro o que foi  que ela fez, um dia escrevo sobre isso), passei minhas mãos uma por baixo de cada axila dela e a ergui para ficar com seus olhos na altura dos meus. Quando eu estava para dar uma enorme bronca nela olhando nos olhos dela a centímetros dos meus, eu me enxerguei neles e me segurei. Ela já esperava a bronca, que não veio.

Ao invés de gritar e brigar e fazê-la chorar, sentei-me no sofá, a coloquei sentada no meu colo e perguntei porque ela havia feito aquilo. Ela me disse o motivo e eu lhe expliquei porque era errado. Manipulei ainda uma coisa que ela sempre teve tal como eu desde pequeno: empatia. Lhe disse o quanto eu estava triste com o que ela havia feito, que eu havia perdido a vontade de brincar de tão triste que estava, que minha "barriga estava tão triste que não podia ficar feliz" (quando ela está satisfeita ela diz que a "barriga está feliz"). Eu lembro dela fazer comigo o que eu fazia com ela quando ela chorava por algum motivo: passou um dos seus bracinhos em volta de mim, encostou sua cabeça em meu ombro e disse: "vai dar tudo certo pai".

Muitos erros e muitos acertos de nossos filhos são reflexo de quem nós somos com eles. Cabe refletir todos os dias sobre isso, Pois quem não procura e não reflete sobre os próprios erros, não está pronto para ensinar a acertar amanhã.

Que as Luzes dos sábios iluminem o seu caminho.

Marcell H.K.

 


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