Coisas da Infância

18/12/2014 11:16

Hoje eu estava vendo algumas fotografias antigas (não temos muitos registros fotográficos, pois a maioria se perdeu ao longo do tempo) e lembrei de várias coisas que eu fazia, pensava e acreditava quando eu era criança. Quer ver um pouco do que eu lembro?

Domingo era dia de meu tío Nelson trazer a minha tia Eliana e meus primos Douglas (chamávamos de Doca) e Daniel na casa da minha avó (que era minha vizinha). Era dia de brincar até a hora de começar os trapalhões e de jantar na casa da minha avó (não lembro de ter jantado em casa nos domingos da minha infância.

Os sábados por outro lado eram nosso dia de passear. Em minha infância não lembro de ter tido um único sábado em que tenhamos deixado de sair. Era muito bom! 

Para nós, crianças, pessoas adultas (chamávamos de "gente grande") sabiam exatamente o que era certo e o que era errado e por isso obedecíamos e acreditávamos que eles sabiam de tudo e inclusive comiam comida muito quente sem queimar a boca (um poder que eu acreditava que teria depois que virasse "gente grande" também).

Meus primos e eu crescemos praticamente juntos e todos nós queríamos ser policiais, pois para nós, não existiam policiais ruins. Mas uma coisa que nunca nos perguntamos foi: mas para que precisa de policiais se "gente grande" sabe exatamente o que é certo e o que é errado? Bandidos não eram gente grande? Porque faziam coisas erradas? Essa é a vantagem de ser criança: não precisar fazer perguntas desse tipo.

Para nós "abracadabra" era uma palavra mágica que só funcionava se você pedisse com vontade e papel na água virava formiga. E se usássemos o "abracadabra" junto, daí era certo que aconteceria. É claro que nenhum de nós nunca parou para relacionar nossas mãos cheias de açúcar por causa dos doces que comíamos com as formigas que apareciam nos potes com água e papel picado. Hoje em dia aparecem bichos em potes de água com papel picado também: chamam-se mosquitos.

Por algum motivo caçávamos mosquitos e moscas. E eu tenho certeza de que ou éramos mais rápidos ou as moscas daqueles tempos eram mais lentas. Eu me lembro até de ter percebido que as moscas ficavam mais rápidas conforme eu crescia (lembro que até cedíamos algumas para nosso tio Paulo que criava rãs). Nossa explicação para a rapidez das moscas era que tínhamos pego todas as moscas lentas do planeta e que as que sobraram eram as mais rápidas (já eramos evolucionistas desde aquela idade).

Veja bem, caro leitor, eu estou contando coisas de quando eu tinha apenas 4 anos de idade. E foi nesta idade que minha avó me disse que se eu continuasse caçando mosquitos e moscas, um dia eu nasceria como uma mosca e seria mantido preso. O que ela esqueceu de dizer é que isso poderia acontecer depois que eu morresse e nascesse de novo. E por causa da falta dessa informação eu me imaginei como uma mosca gigante presa em um copo gigante. Seja como for, parei de caçar moscas por um tempo (algumas horas). Você sabe, né? Crianças têm memória curta quando estão brincando.

E por falar em morte um dia voltando da escola, dentro da kombi (e naquela época andávamos lá na parte de trás, onde seria o bagageiro (nosso território, onde ninguém que voltava as 11:30 poderia pisar exceto nós). E foi lá que eu aprendi algo que me tirou o sono por muito tempo: depois que morremos, os bichos vem e comem o nosso corpo. Contei isso chorando uma vez para os meus pais.

E como eu era bem inocente naqueles tempos eu ouvia meu pai me contar as histórias de quando ele foi para a guerra e lutou contra vários guerrilheiros e nas férias jogava basquete na seleção brasileira. Passava horas ouvindo aquele monte de história de mentira e acreditava. Bom, acreditei em Papai Noel até meus 9 anos de idade. Na verdade ainda estava em dúvida se ele era de mentira mesmo até os meus 10 anos. O Coelho da Páscoa eu tinha certeza de que era mentira. Onde já se viu um coelho botar ovos? Todos achavam que era um coelho, mas na verdade era uma Galinha da Páscoa. Ei tinha certeza até me perguntar: como a galinha entra em casa?

É de minha infância que trago a lembrança de um amigo e uma amiga que nunca mais vi nem tive notícias. O nome deste meu amigo é Paulo Rogério (não vou dizer que era, porque eu acredito que ainda esteja vivo, bem e que um dia ainda vou achá-lo de novo). Nós todos o chamávamos de Paulinho. E uma coisa muito interessante e que eu lembro muito bem: éramos grudados um no outro no maternal onde ficávamos (foi lá que nos conhecemos). Ele dizia que eu era seu irmão e dizia isso para todo mundo. Certa vez em um de meus aniversários ele perguntou a uma de minhas avós se ela tinha visto o irmão dele. Quando ela perguntou quem era o irmão dele ele respondeu: "é o Marcell, ele é meu irmão!". Nossas mães não sabiam explicar porque o Paulinho me chamava assim nem o que fez ambos ficarem tão próximos. Depois eu soube que ele e sua família se mudaram para o Rio de Janeiro e nunca mais tive notícias. Minhas primeiras professoras, a tia Lena e a tia Dulce, com quem tenho contato até os dias de hoje, lembram bem dessa história tal como a escola toda onde eu estudei lembrou até o ano em que lá voltei para cursar o colegial (atual ensino médio) do meu "bofo" (o nome que dei para um cobertor que eu sempre carregava comigo). Já volto a falar dele.

Foi nesta época também que lá no pré-primário conheci uma amiga que também nunca esqueci. Seu nome é Fabiana (novamente não direi era pelos mesmos motivos que expliquei em relação ao Paulinho, meu irmão do coração). Nesta idade normalmente meninos e meninas não se misturam e ficam em grupinhos separados. Mas minha amiguinha Fabiana sempre tinha seus olhinhos focados em mim quando eu estava por perto. fui até padrinho da boneca dela uma vez! Na formatura do pré, minha turma dançou valsa (é dessa época que surgiu minha paixão por esse estilo de dança) e foi bem triste meu par ter sido outra menina e não ela.

Procuro por esses dois amigos há muitos anos. Porque ninguém leva uma parte de nós e deixa uma parte de si, sem um motivo.

Bom, comentei sobre o meu "bofo", o cobertor que eu carregava comigo. Sabe o Linus no desenho Snoopy? Bom era mais ou menos daquele jeito. O "bofo" ficou tao famoso, que depois que voltei para a mesma escola onde eu ia quando criança uma das funcionárias mais antigas disse que se um dia eu fosse me desfazer do "bofo" ela queria ele, pois aquele cobertor marcou todo mundo que trabalhou naquela escola, naquele tempo. Eu só larguei ele aos 10 anos de idade.

Uma coisa curiosa que passava pela minha cabeça e que hoje eu vejo que não era tão louca assim era a ideia de que tudo o que acontecia, seguia todas as possibilidades possíveis antes de acontecer de fato. Bom, os adeptos da Física Quântica não vão achar isso tão esquisito, exceto pelo fato de ter sido pensado por um menino quando tinha seus 5 anos de idade.

Tive que registrar essas lembranças aqui. Minha memória nos últimos meses não está tão cooperativa. Muitas coisas, palavras, lembranças, etc estão sumindo de minha memória.. Este tópico em especifico, compartilho com todos vocês, mas saiba que o criei para a minha filha Isabella. Um dia, quando eu não estiver mais neste mundo (e se o Google não acabar com o Blogger), caso ela faça uma busca pelo meu nome, achará essas histórias de quando o pai dela ainda era criança, com a mesma idade que ela tem hoje. As postagens sobre lembranças são as mais longas. Da próxima vez serei mais sucinto.

Que as luzes dos sábios iluminem o seu caminho.

Marcell H.K.

 


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